Meu primeiro contato com a obra de Arley aconteceu no outono de 2000, num curso sobre as Investigações Filosóficas que ele estava ministrando nas quintas feiras na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Motivado por aquele curso, Arley e alguns de seus estudantes começaram a se encontrar às tardes, depois de partilhar deliciosos almoços, para discutir suas observações sobre as Investigações. Nessas discussões, a ideia que ressoou em mim foi a de Terapia filosófica, a qual Arley começara a …
Read moreMeu primeiro contato com a obra de Arley aconteceu no outono de 2000, num curso sobre as Investigações Filosóficas que ele estava ministrando nas quintas feiras na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Motivado por aquele curso, Arley e alguns de seus estudantes começaram a se encontrar às tardes, depois de partilhar deliciosos almoços, para discutir suas observações sobre as Investigações. Nessas discussões, a ideia que ressoou em mim foi a de Terapia filosófica, a qual Arley começara a desenvolver num livro anterior Wittgenstein: através das imagens (1995). Decidi, por conseguinte, escrever meu trabalho final para o curso sobre o assunto. Minha tentativa naquele momento era introduzir uma relação de contraste entre a terapia wittgensteiniana da linguagem e o que eu apresentava como o medo e a rejeição socráticos de contradições. Meu escrito, “ Sobre a filosofia como uma atividade terapêutica”, posteriormente publicado nos Cadernos de História e Filosofia da Ciência (Gómez, 2004) foi grandemente inspirado pelas leituras e discussões com o grupo Filosofia, Linguagem e Conhecimento (Filicon), algumas leituras sobre o elenchus socrático que eu fizera em um de
meus cursos de graduação na Universidade Nacional em Bogotá, Colômbia, e o livro de Arley de 1995.
Algumas das ideias expressas naquele artigo mudaram de 2004 para hoje . Por exemplo, não penso mais que a busca por autoconhecimento , num sentido seja vazia. Tampouco penso que lutar contra o medo de contradições seja o principal objetivo da terapia filosófica. Mas ainda penso que a terapia filosófica é uma boa maneira de lutar contra esse medo particular. Por causa disso, não consigo pensar em melhor maneira de pagar tributo a Arley nos dias de hoje do que dar continuidade àquele artigo, fazendo o que não fiz naquele momento, a saber, levantar a hipótese de que a ideia de contradição representa um problema para os filósofos e mostrar como essa hipótese poderia ser entendida pelas lentes de
Arley naquele livro.
Escolhi um caso sobre o qual tenho pesquisado ultimamente. A doutrina da encarnação. A doutrina cristã que diz que “Jesus de Nazaré era a mesma pessoa que Deus Filho, a segunda pessoa da Santíssima Trindade” (MORRIS, 2001, p. 13). Essa doutrina implica crer na proposição Cristo é verdadeiramente divino e verdadeiramente humano”, a qual chamarei de “G” 2. Essa crença tem sido amplamente debatida desde o começo da era cristã e continua a ser tema de debate entre teólogos e filósofos contemporâneos após sua talvez mais importante e recente reformulação no Concílio da Calcedônia (451 CE).
A principal razão pela qual esse tema tem sido tão debatido é que afirmar que o mesmo indivíduo, Cristo, é ao mesmo tempo verdadeiramente divino e verdadeiramente humano aparentemente implica afirmar uma contradição... E entre os teólogos e os filósofos há tanto medo e rejeição de contradições ao falar da doutrina da encarnação quanto havia entre os filósofos gregos, como Sócrates, Aristóteles e outros.
Primeiro, este artigo é melhor na tentativa de entender o que significa dizer que G é uma contradição. Segundo, é uma tentativa de mostrar que G poderia, em algum momento, ser considerada como um caso que nos permitiria introduzir novas maneiras de entender a assim chamada Lei de Não Contradição (LNC). O primeiro objetivo é motivado pelo fato de que, falando formalmente, a proposição G não parece ser uma contradição em sentido rigoroso. Relativamente a esse ponto, a descrição gramatical parece fornecer uma maneira de lidar com o problema. A mot ivação para o segundo objetivo é que, em muitos contextos, a LNC, a qual, de um ponto de vista lógico, é expressa pela proposição (A A)A), é considerada como uma lei necessária e universal, e uma das razões por que isso acontece é porque as contradições são consideradas expressões linguísticas que não correspondem a fato algum no mundo. A respeito disso, G parece ser um caso que permite a modificação da formulação da LNC entendida como uma regra gramatical.
Para fazer isso, apresento, na primeira seção, o que chamo de “uma imagem da doutrina da encarnação como uma contradição”, quer dizer, uma rede de conceitos na qual a proposição “G é uma contradição” tem certo lugar. Faço isso baseada na ideia de uma descrição gramatical desenvolvida por Arley no capítulo III de seu livro. Na segunda seção,
examino a maneira como Arley, em seu livro, interpreta as leis lógicas, como a Lei de Identidade, e deriva algumas consequências acerca do escopo da descrição gramatical e da terapia filosófica. Essa proposta baseia-se no capítulo IV do livro de Arley, mas eu tento ir além dessa abordagem de Arley e das ideias de Wittgenstein acerca do escopo da terapia
filosófica. Na terceira seção, aplico esses resultados à LNC e ao problema da coerência da doutrina da encarnação, extraindo algumas consequências concernentes à formulação da LNC. Concluo este artigo com algumas questões acerca das interpretações das contradições aqui apresentadas e acerca da doutrina da encarnação que emergem dessa perspectiva.