Neste artigo, proponho uma análise do conceito de tolerância a partir de um diálogo entre ética e hermenêutica. Argumento que podemos encontrar um aspecto importante do homem tolerante através de um olhar hermenêutico para a sabedoria prática e seu processo deliberativo. Desde sua origem trágica, a sabedoria prática (to phronein) está relacionada a um determinado modo de deliberação que leva em conta tanto aspectos quanto possível de uma dada situação para decidir pela melhor alternativa prática…
Read moreNeste artigo, proponho uma análise do conceito de tolerância a partir de um diálogo entre ética e hermenêutica. Argumento que podemos encontrar um aspecto importante do homem tolerante através de um olhar hermenêutico para a sabedoria prática e seu processo deliberativo. Desde sua origem trágica, a sabedoria prática (to phronein) está relacionada a um determinado modo de deliberação que leva em conta tanto aspectos quanto possível de uma dada situação para decidir pela melhor alternativa prática. Para analisar esse processo deliberativo, gostaria de explorá-lo a partir de uma estrutura narrativa. A ideia de densidade narrativa captura a multiplicidade de fios narrativos de um discurso. Quanto maior o número de fios narrativos que compõem um discurso narrado, maior a densidade narrativa. Sugiro que um aspecto fundamental da boa deliberação é ter uma alta densidade narrativa, que é, como discutiremos neste texto, também um traço fundamental do discurso tolerante. Um discurso intolerante é fraco em seu aspecto deliberativo, pois carece de densidade narrativa. Ao ignorar os outros em um processo hermenêutico deficiente, o intolerante delibera a partir de sua única perspectiva e ignora outras prioridades, crenças, argumentos e desejos expressos. Uma deliberação narrativa mais densa é um aspecto linguístico relevante do homem tolerante, pois lhe permite superar seu medo do desconhecido e contrabalançar suas tendências egocêntricas. A deliberação phronética é, portanto, um passo essencial para a possibilidade de respeitar os outros. É um reflexo do reconhecimento mútuo e também o ponto de partida de decisões e ações tolerantes.