Para investigar a afetivização da leitura da ficção, este artigo discute a teoria da narrativa de Marco Caracciolo. Investigar como textos literários produzem efeitos afetivos no leitor demanda encontrar uma teoria da cognição humana capaz de integrar, num único modelo descritivo, os componentes sensoriais e representacionais envolvidos no processo, explicando como o texto estimula uma experiência imaginária capaz de gerar respostas afetivas. Dentro do campo emergente da narratologia cognitiva, …
Read morePara investigar a afetivização da leitura da ficção, este artigo discute a teoria da narrativa de Marco Caracciolo. Investigar como textos literários produzem efeitos afetivos no leitor demanda encontrar uma teoria da cognição humana capaz de integrar, num único modelo descritivo, os componentes sensoriais e representacionais envolvidos no processo, explicando como o texto estimula uma experiência imaginária capaz de gerar respostas afetivas. Dentro do campo emergente da narratologia cognitiva, este artigo encontra esse modelo na teoria enativista de Marco Caracciolo, para a qual a leitura envolve o apelo a memórias experienciais do leitor a partir do estímulo de dispositivos expressivos do texto. Para testar a aplicabilidade da sua teoria, fazemos uma análise de excertos de O Cemitério, de Stephen King, com foco na articulação de dispositivos expressivos que podem suscitar a experiência enativa de percepções e afetos, culminando na experiência do horror. Pontualmente, são comentadas teorias complementares à nossa discussão, como o enativismo radical de Daniel Hutto, a teoria evolutiva das emoções de Stephen Asma e Rami Gabriel e a teoria da linguagem de Daniel Dor. Desse modo, o artigo fomenta a discussão sobre as contribuições potenciais do enativismo para a teoria da literatura, mediante a introdução das proposições de Caracciolo, um dos fundadores dessa pesquisa transdisciplinar emergente.