A discussão sobre a racionalidade ocupa um lugar central tanto na filosofia quanto nas ciências sociais. No âmbito da economia, o conceito foi moldado ao longo do século XX sob a influência de uma busca por rigor científico, marcada pela tentativa de equiparar os métodos econômicos aos das ciências exatas. Essa ambição se consolidou sobretudo a partir de Lionel Robbins (1932), cujo projeto era tornar a economia uma ciência positiva e objetiva, afastada da psicologia e de julgamentos normativos. …
Read moreA discussão sobre a racionalidade ocupa um lugar central tanto na filosofia quanto nas ciências sociais. No âmbito da economia, o conceito foi moldado ao longo do século XX sob a influência de uma busca por rigor científico, marcada pela tentativa de equiparar os métodos econômicos aos das ciências exatas. Essa ambição se consolidou sobretudo a partir de Lionel Robbins (1932), cujo projeto era tornar a economia uma ciência positiva e objetiva, afastada da psicologia e de julgamentos normativos. A consequência foi a cristalização de uma noção de racionalidade estritamente vinculada à ideia de maximização da utilidade, que dominou a economia neoclássica e sustentou o desenvolvimento de modelos matemáticos de previsão e de análise. Entretanto, esse modelo clássico de racionalidade trouxe consigo uma dificuldade conceitual. Ao adotar a maximização como critério universal de racionalidade, toda escolha que escapasse desse parâmetro passou a ser classificada como “irracional”. Esse enquadramento reduziu a complexidade da ação humana e estabeleceu um contraste rígido entre comportamento racional e irracional, como se fossem categorias excludentes. A partir da segunda metade do século XX, com o advento da economia comportamental, esse quadro começou a ser questionado. Pesquisadores como Kahneman e Tversky (1974, 1979), Richard Thaler (1980) e Thaler e Sunstein (2008) reintroduziram no debate econômico os estados mentais, vieses e conflitos internos, mostrando que a decisão humana não pode ser descrita apenas pela lógica maximizadora. Pelo contrário, a chamada “irracionalidade” revelou-se não apenas inevitável, mas também constitutiva da racionalidade prática. Isso significou que a “irracionalidade” pode ser estudada, explicada e até mesmo prevista. Essa reorientação teórica abriu espaço para pensar a racionalidade não como ausência de desvios, mas como um processo permeado por conflitos. A irracionalidade deixou de ser mero erro absoluto e passou a ser considerada parte do funcionamento real da mente humana. Com isso, a distinção rígida entre racionalidade e irracionalidade, típica da tradição neoclássica, perde força diante dos resultados da economia comportamental. O que antes era visto como falha pode agora ser reinterpretado como elemento constitutivo da deliberação. Não apenas porque mesmo escolhas enviesadas ainda respondem a razões que os agentes reconhecem como motivos de ação, mas também porque os próprios desvios podem ter uma função adaptativa. Heurísticas economizam esforço cognitivo e funcionam em grande parte dos contextos, ainda que gerem erros sistemáticos em outros. Nesse sentido, a irracionalidade não é simplesmente um desvio a ser eliminado, mas parte constitutiva da deliberação humana. Desse modo, a racionalidade deve ser entendida
menos como cálculo perfeito e mais como dinâmica não linear, atravessada por tensões internas entre desejos imediatos e intenções de longo prazo, entre interesses individuais e normas sociais, entre cálculo neutro e moralidade. O conflito não é sinal de falha, mas condição constitutiva do exercício de decidir. A partir desse ponto, torna-se possível propor um diálogo entre a concepção hegeliana de racionalidade e as leituras contemporâneas da economia comportamental. Se, em Hegel, a razão (Vernunft) é o movimento que reconcilia o negativo, então a irracionalidade não é uma falha, mas o próprio movimento da razão em sua efetividade. A contradição não é exterior ao pensar, mas o modo pelo qual o conceito se realiza. Nesse sentido, o erro, a hesitação ou a escolha podem ser compreendidos como momentos necessários do processo racional. Ainda assim, há um notável hiato teórico: embora a literatura reconheça a afinidade entre crítica à racionalidade instrumental e dialética hegeliana, faltam estudos que examinem sistematicamente como a razão especulativa pode oferecer uma moldura conceitual para compreender as tensões internas da racionalidade prática. Essa é a lacuna que este estudo busca preencher: investigar em que medida a noção hegeliana de racionalidade, como processo que se realiza pela contradição, pode iluminar as formas contemporâneas de deliberação e decisão. Reintroduzir Hegel nesse debate significa deslocar a racionalidade do âmbito do cálculo para o da vida conceitual — compreendendo o conflito não como erro, mas como condição mesma da razão.